
O Bar Lagoa, uma das casas mais tradicionais da cidade, fechando
Numa das primeiras incursões que o
Zé Octávio fez, como pesquisador do
Rio Botequim, ao pé-sujo do seu
Jóia, acabou enxotado por ele, que, aos berros, dizia:
— Meu bar não é um botequim!
Corria o ano de 1997. E poucos meses antes desta cena, digamos, dramática, eu havia sido contratado pela turma da editora
Casa da Palavra e da firma de pesquisa cultural
Memória Brasil para coordenar uma equipe de quatro ou cinco pesquisadores e escrever as crônicas dos botequins selecionados numa grande pesquisa por toda a cidade. A iniciativa era do então prefeito
Luiz Paulo Conde e estava inserida dentro de um projeto maior, que incluía ainda guias de sebos, igrejas e estilos arquitetônicos da cidade. Enfim, coisas de arquiteto, que quando não está quebrando a cidade e mudando suas feições, resolve mergulhar nostalgicamente em projetos de preservação de patrimônios subjetivos.

Baiano experimenta o joelho do Bar do Paulinho, em Higienópolis
Na época, trabalhava no jornal
O Dia, onde
Jaguar, um dos boêmios mais conhecidos e respeitados da cidade, tinha uma coluna semanal. Ao saber do projeto de um guia de botequins, escreveu uma crônica metendo o pau na iniciativa. Alguns meses depois,
logo após a publicação do livrinho, ele escreveu outra, que abria dizendo algo como: “fui criticar sem ler, acabei mordendo a língua”. Não me lembro exatamente dos detalhes, mas era um pedido de desculpa e, embora criticasse aqui e ali uma ou outra falha, batia o martelo: “o trabalho é sério”.

Casal no balcão da Adega Pérola, em Copacabana: chope e petiscos
De lá pra cá, foram quase dez anos, várias edições, com a relação dos 50 bares escolhidos pela equipe de pesquisadores e editores; as eleições diretas; vários capítulos especiais, como o dos bares de
Santo Cristo,
Gamboa e
Saúde; além do registro de bares que, hoje, infelizmente desapareceram, como o
Belmonte original, o
Garoto das Flores, o
Pinhel (onde bebi cerveja com
Soraya pela primeira vez),
Arco Teles,
Casa da Cachaça, entre outros.
Ainda no
Dia, fiz a primeira coluna exclusiva sobre botequins dos jornais cariocas e, quando fui para o
Jornal do Brasil, levei a idéia pra lá. Mais tarde, no
Globo, criaram a coluna
Pé-Sujo, assinada por
Juarez Becosa, pseudônimo do
Paulo Mussoi. Fora isso, houve centenas de matérias sobre comportamento, abordando do chope ao garçom, gastronomia, perfis de celebridades da boemia, palavras de boêmios, como
Moacyr Luz,
Baiano, a turma do
Pasquim,
Aldir Blanc,
Martinho da Vila, donos de botecos, como
Alfredinho do
Bip-Bip;
Juca, do
Serafim; o finado
Paulinho, do
Bar do Paulinho; e por aí vai.
Marceu Vieira em pé, na Codorna do Feio, no Méier: codorna na brasa e cerveja
O sucesso de mídia detonou todo um processo incontrolável. De repente, botequim, que era um reduto exclusivo de boêmios, virou moda, passou a ser freqüentado por pessoas que antes torciam o nariz para essas casas comerciais. Ganhou adjetivos até impensáveis, como
pé-limpo; surgiram especialistas, críticos e a palavra botequim, que antes era pejorativa (a ponto do português se sentir ofendido com a insinuação de que seu bar era um botequim), passou a ser valorizada. Empresários da noite perceberam o filão que se abria e investiram no
marketing botequim, como marca de autenticidade para seus bares moderninhos. O botequim virou grife e passou a circular em colunas sociais, como a do
Ancelmo Góis e
Joaquim Ferreira dos Santos.
O guia ganhou vida própria, tornando-se independente da prefeitura, e suas reuniões de trabalho (que juntava editores, pesquisadores e redatores) eram sempre um quebra-pau na hora de escolher os 50 selecionados para entrar no guia. Os pesquisadores percorriam cerca de 200 estabelecimentos e se apegavam a um ou outro. Na hora de cortar era um dilema. Tinha gente que ficava magoada com o corte ou a inclusão de determinado bar. Havia pressão da prefeitura, pressão de donos de botequins, pressão de amigos, pressão de cervejarias etc. Também havia pressão —
contra a qual tentávamos resistir — para incluir bares moderninhos. Não havíamos decidido ainda que posição tomar em relação a este fenômeno. O caso do
Belmonte foi exemplar. Me lembro da interferência de
Moacyr Luz e
Baiano, quando souberam que estávamos querendo excluir o
Belmonte do guia, depois da transformação feita pelo
Antonio Rodrigues. Eles defenderam com unhas e dentes o bar, afirmando que já era hora do botequim ter banheiro limpo.
Auto-retrato no Bar do Serafim, em Larangeiras: papo furado e lulas alentejanas
Em meio a esse processo, fiz minha dissertação sobre um boteco de Botafogo. Durante três anos freqüentei diariamente a
Adeguinha para fazer minha etnografia. Levar o botequim para a academia, ou melhor, levar a academia ao botequim, me possibilitou refletir sobre esse tema tão apaixonante usando a antropologia, o que me permitiu ver inclusive minha tendência a fetichizar certas idéias, como a existência de um pé-sujo puro, o verdadeiro “butiquim”, com “u”, como usam os entendidos ao referirem ao “autêntico” pé-sujo.
O
Aldir Blanc disse: “botequim é papo”. Concordo com ele e acho, na minha modestíssima opinião, que isso resume tudo. Botequim não é apenas o cenário (balcão de mármore, geladeira de madeira, mesinhas com tampo de mármore, sobrado na Zona Norte, santo protetor na parede, chopeira velha, parede de ladrilhos etc.); não é apenas sua culinária; nem seu garçom ou o dono português e a cozinheira cearense; o cliente que mora na esquina, freqüenta diariamente, pendura a conta e passa, como diz
Jaguar, mais tempo com o garçom do que com a mulher. O botequim é a relação dinâmica que engloba todos esses elementos. O todo é maior que a soma das partes.
Bar da dona Maria, na Muda: onde o Moacyr mantém uma relação de amor e ódioE mesmo esses elementos de autenticidade, para minha contrariedade purista, hoje são invadidos e modificados por outros valores, muitos deles estimulados pela mídia. O banheiro limpo do
Moacyr é um exemplo. Outros são a presença feminina cada vez maior, a ênfase na qualidade do serviço, a “modernização” do espaço etc e tal. A questão é: a relação boêmia só pode ocorrer num cenário de pé-sujo tradiconal? Será ela menos autêntica se rolar no
Belmonte? Talvez a resposta esteja na assiduidade da freguesia e na relação de proximidade com a rua e o bairro. Um bar de forte rodízio, botequim de passagem, certamente não terá os mesmo laços que um botequim de proximidade, onde se pendura a conta e se estabelece maior intimidade com o dono e os garçons. Mas isso não significa que não haja algum tipo de laço nos bares de passagem.
Nova Capela,
Bar Brasil e
Cosmopolita são bons exemplos.
Diante da invasão incontrolável e incontornável, porque afinal tudo se transforma na sociedade, que a mídia fez sobre o botequim, é compreensível que algumas pessoas se sintam incomodadas e armem trincheiras em nome da legitimidade do “butiquim”. Afinal, com o botequim em alta como “tema” de interesse jornalístico, a mídia empurra todo tipo de matéria (muitas delas feitas por pessoas que nem mesmo gostam desse tipo de boemia) e cria novas categorias, como boteco-fashion, pé-sujo light, pé-limpo e o escambau. Por outro lado, quando se ataca esses modismos, muitas vezes acaba-se, no outro extremo, estereotipando o botequim, como algo puro, congelado no tempo e ameaçado de extinção.
Se o
Aldir está certo, o botequim é papo. E papo é relação humana, troca de idéias etc. Por isso, o botequim pode até se transformar, mas nunca vai acabar. Pois qualquer cidade do mundo precisa de um lugar para jogar conversa fora. Ao contrário do que alguns pensam, o
Rio Botequim e a cadeia de
fait divers que ele detenou não são uma ameaça ao "butiquim". A onda moralista contra a boemia e os estereótipos alienantes são bem mais nocivos.
Aurora, em Botafogo: lulas com arroz e brócolis e hoje o chope mais barato da cidade
O novo
Rio Botequim vem aí. E novo mesmo. Dessa vez com outra equipe, comandada pelo
Guilherme Studart, a quem não conheço, mas dizem que é um apaixonado por comida de boteco. E o guia este ano é uma edição especial sobre comida. Me pediram e fiz a orelha do livro, tentando pensar num balanço desses quase dez anos. Vi os originais e achei bonito. O
Guilherme conta a história dos petiscos e pratos, põe a receita e dá a dica dos botecos onde podem ser consumidos.
Com isso o guia segue o seu caminho com outras pessoas e focado em tópicos específicos. Gosto de pensar que minha contribuição foi a de desbravar um campo, onde o boteco era visto negativamente, como o lugar do desvio do homem virtuoso. Situado entre o trabalho e o lar, oferecendo o ócio, o alcoolismo e a malandragem. Gosto de pensar, do alto da minha presunção, que, depois do
Rio Botequim, a sociedade viu que essas casas também são o lugar onde o operariado, o pobre, o cidadão comum constrói uma noção muito especial de cidadania, com seus pares, na jocosidade, nas bravatas, no pendura, sem chefe, sem patrão, sem patroa.

Juninho no comando da Adeguinha, em Botafogo: três anos de pesquisa diária
Em alguns botequins vi de forma nítida esse processo simultaneamente de sociabilidade e socialização: no bar do falecido
Paulinho, em
Higienópolis, onde se come sopa de galo, ova de galinha, costela assada no latão. No bar do seu
Manoel, no
Maracanã, onde tem a
Confraria do Bode Cheiroso. No
Bar da Amendoeira (
Maria da Graça) e no
Adonis (
Benfica), com seus excelentes chopes. Na
Paulistinha, no
Centro. Os sanduíches do
Opus, no
Centro, e seu chope cremoso. O bolinho de bacalhau do
Sassaruê, em
Botafogo. O samba do
Bip e a bela figura do
Alfredinho. O ambiente do
Stephanio’s, na
Tijuca. Os petiscos da
Adega Pérola, em
Copa. E tantos outros.
Garçons que deixaram saudade, como o
Bengala, do
Vermelhinho (fizemos uma campanha para ele, quando resolveu se candidatar a vereador), o
Lima, do
Aurora, o
Sorriso, da
Adeguinha; e outros que continuam na ativa, como o seu
Costa e o
Vieira, do
Lamas, o
Edílson, do
Jobi, e segue a lista.
Esse post, que tem um tom de despedida, é dedicado à turma pioneira que fez o Rio Botequim: Zé Octávio, Custódio Coimbra, Marceu Vieira, Alexandre Medeiros, Soraya Simões, Flavio Silveira, Gustavo Gomes, Julio Levy, Henrique Costa Lima, Cristina Chacel, Marcelo Lins, Bruno Veiga, Antonia Pellegrino, Tim Lopes, Sergio Lutz, Tomás Ribas e Fabio d’Arrochella.

A ex-turma do Rio Botequim em foto de Custódio Coimbra: (da esquerda para a direita) Martha, Laura (editoras), Zé Octávio, Gustavo, Flavinho, Julico, Irriqui, Soraya e eu