pindorama

"Quando for depois
E eu não estiver aqui
Já deixo dito que sim,
Embora as coisas do não
Possam trocar as palavras,
Como trocadas as asas
Voam pra falsa estação."

(Manduka)

"Pos isso somos quem somos
Estrelas de um só momento
Mas cujo brilho ameaça
A ordem do firmamento"

(Manduka)

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Nome: paulo thiago
Local: Rio de Janeiro, rio de janeiro, Brazil

Jornalista e antropólogo

Sábado, Novembro 13, 2004

Dáte una vuelta en el aire

O Dr. Cornbloom era um ser um todo lunar. Caminhava pela terra a passos firmes, conquanto sempre em espiral. Vivia, por assim dizer, com os pés nas estrelas, assoviando canções que diziam coisas impositivas como: "dáte una vuelta en el aire". Quem o observasse mais atentamente perceberia uma constelação em suas palavras e aquela luz oblíqua nas idéias. Como de costume nessa estirpe de almas, era atraído por todos os tipos de silêncio, sobretudo o noturno, e em qualquer firmamento mais longínquo aquietava-se de contentamento. De tanto asozinhar-se, era dado como um sujeito taciturno, o que não correspondia de modo algum à realidade dos fatos, ainda que a realidade, fosse qual fosse, era sempre posta em dúvida pelo próprio Dr. Cornbloom em suas explosões silenciosas. Mas nesse caso, tais inferências de fato não tinham a ver com sua personalidade, pois o Dr. Cornbloom vivia lá seus momentos de folias e estripulias. Via a si próprio até mesmo como um boêmio, quiçá um sátiro nos seus melhores momentos, embora sempre permeado por um caráter romântico que com o tempo aderira à sua pele como uma cera protetora. Houve até quem o visse dançando um bolero. E, segundo tais relatos, conduzia sua dama com destreza e sem hesitação, apesar dos olhos afogados pelos enredos das canções de amores perdidos para sempre. Sendo como era, o Dr. Cornbloom fugia sempre que possível de pessoas solares e suas razões iluministas. Esse tipo de gente sempre lhe queimava as ponderações visionárias e o encantamento das incertezas. Estavam sempre a declarar verdades irrefutáveis e ele a lhes lançar dúvidas eternas. De modo que não combinavam e embora não fosse afeito a fugir de uma boa briga, o Dr. Cornbloom os evitava ao máximo, porque além de tudo costumavam ser muito enfadonhos. Ele preferia os ensombreados como ele, e não por identificação, pois embora afirme-se que no escuro todos os gatos sejam pardos, na verdade apresentam personalidades singularíssimas. De modo que nunca se reconhecia em seus pares. E adorava-os por isso. No entanto, nem sempre é possível esquivar-se de meteoros incandescentes, especialmente quando aparecem de surpresa nas brechas do tempo, equidistantes entre o dia e a noite, em formas sinuosas e curvilíneas. E nosso pobre Dr. Cornbloom, em pleno retorno de Saturno, viu-se traspassado pelo olhar moreno de uma ninfa. Num primeiro zás, pensou que enlouquecera, pois o canto de sereia instalou-se em sua cabeça e o silêncio partiu-se estilhaçado. Ela era o fogo, a labareda do dragão, e o Dr. Cornbloom entregou-se a ela, no inteiro, alçando um vôo por céus nunca dantes navegados em insuportável alegria. E à medida que aproximou-se daquele sol, a cera que lhe protegia, no peito, o coração derreteu-se e Cornbloom, não mais doutor de ciência alguma, caiu do espaço e morreu, feliz, de amor.